O Poder Oculto das Pequenas Árvores: Estudo Revela que Troncos Finos Guardam Até 75% do Carbono em Florestas Jovens na Amazônia
Pesquisa realizada por cientistas paraenses com 26 mil árvores em 16 municípios redefine o papel de plantas com menos de 10 centímetros de diâmetro na recomposição de áreas degradadas no Pará.

BRAGANÇA — Quando pensamos na Amazônia e no combate às mudanças climáticas, logo nos vêm à mente as grandes árvores centenárias. No entanto, um estudo publicado por pesquisadores paraenses na revista científica Ecosphere, da Ecological Society of America (ESA), joga luz sobre os verdadeiros protagonistas das primeiras etapas da recuperação florestal: os indivíduos de pequeno porte.
O trabalho intitulado “The contribution of small trees to carbon stocks along a recovery gradient in the Amazônia” demonstra que árvores com menos de 10 centímetros de diâmetro no tronco podem responder por até 75% de todo o carbono armazenado durante os estágios iniciais de regeneração de áreas degradadas.
Metodologia robusta no Pará
Para chegar a esses resultados, a equipe científica analisou dados de 126 áreas de vegetação distribuídas por 16 municípios do Pará, avaliando cerca de 26 mil árvores. A maior parte dessa amostra concentrou-se em florestas secundárias jovens — com 25 anos ou menos de regeneração —, o que reflete com precisão a média da Amazônia, onde as áreas de recomposição recente já ocupam aproximadamente 25% das zonas desmatadas do bioma, cobrindo cerca de 8 milhões de hectares no Brasil.
De acordo com os pesquisadores, indivíduos com essas características de menor porte costumam ser ignorados nos grandes inventários e estudos tradicionais sobre captura de carbono na região, focados habitualmente apenas em árvores com diâmetros superiores a 10 centímetros na altura do peito.
A Palavra do Especialista

Para detalhar o impacto prático da descoberta, conversamos com um dos autores do estudo, o professor Dr. Luiz Antônio Cardoso, docente do curso de Agroecologia do Instituto Federal do Pará (IFPA) Campus Bragança.
Rádio Bragança: Professor, por que essas árvores menores costumavam ser ignoradas e qual foi a grande surpresa ao analisar o papel delas na Amazônia?
Dr. Luiz Antônio Cardoso: Quando a gente acompanha os inventários florestais que são feitos na Amazônia, nas florestas tropicais em geral, eles consideram apenas os indivíduos que têm 10 cm de diâmetro à altura do peito. Então, quando a gente utiliza isso para as florestas já maduras, faz total sentido, porque, enfim, são nelas que vão estar estocada a maior parte do carbono nessas florestas.
Porém, quando a gente leva em consideração as florestas secundárias, principalmente as florestas secundárias jovens, que são a maioria das florestas secundárias da Amazônia, a gente percebe que, se utilizar apenas os indivíduos acima de 10 cm, vamos estar perdendo carbono nas estimativas. O que a gente percebe, para nossa grande surpresa, quando inclui indivíduos de 2 cm no mínimo até 9.9 cm, é que eles representam no início da regeneração até 75% desse carbono. Fica evidente que, se forem negligenciados nesse início da sucessão até os 25 anos, vamos estar perdendo muito da história de regeneração dessas florestas e das nossas estimativas.
Rádio Bragança: Esse protagonismo dos menores caules se mantém estável à medida que a floresta envelhece?
Dr. Luiz Antônio Cardoso: 75% sim, é um número bem expressivo, relativo à quantidade de carbono entre pequenas e grandes. E a gente percebe que, com o decorrer do tempo, essa quantidade nos indivíduos pequenos vai diminuindo. Isso porque, no início da sucessão, as primeiras espécies que tendem a surgir são as pioneiras, e elas vão dar espaço para que as espécies maiores venham a se consolidar na área de regeneração. Com o passar do tempo, com 10 anos, esse percentual chega a 50% para grandes e pequenas, e ali com 25 anos a gente percebe que há uma estabilização, e essa estabilização vai até o nosso gradiente de 120 anos.
Rádio Bragança: De que forma essa descoberta age no monitoramento e nas políticas de preservação no Brasil?
Dr. Luiz Antônio Cardoso: É importante falar primeiramente que a principal estratégia de conservação é você não derrubar a floresta; o ideal seria termos só florestas primárias, mas não é isso que vemos normalmente. O nosso artigo chega para quantificar essa quantidade de carbono e mostrar que investir em regeneração e em restauração florestal também é uma estratégia super eficiente para podermos recuperar esse carbono que foi para a atmosfera.





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